Tinha os olhos postos no umbral da janela de chuva.
O vento rompia por entre as frestas do quarto, uivante, fustigando tudo por onde passava.
O último grito que dera perdeu-se no tempo que corria, agora, lentamente. Ecoavam passos dispersos por toda a casa, passos de gente que caminhava em silêncio. Tudo era respeito sentido, tristeza de quem tenta compreender a dor do próximo.
Ele nasceu sem ter pedido.
Ela descansava agora, extenuada do esforço, cansada de parir, cansada de viver, enquanto o seu corpo dormente pedia água.
Por vezes paro no silêncio das sombras que me perseguem e olho-as. Outras corro ao lado.
*
Talvez chegue hoje, na linha do mar e do trilho.
Talvez me batam no ombro, talvez…
E se não quiser esperar, correrei no tempo, como a chuva correu naquele dia,
o dia em que vivi, o dia que não vi.
Talvez vá e fique, sempre, por querer ficar e cair.
Talvez haja outro talvez…
Talvez...
*
Fascina-me esta ideia de tempo, tempo que vai e leva. Ocupo os meus dias sonâmbulos perseguindo-o, como se pelo simples facto de correr atrás dele o conquistasse, o pudesse prender entre os meus dedos, nunca com a ideia de o reter, mas sim de o dominar.
Que me interessa a mim tempo parado? Se estou eu parado no tempo, e não me consigo resgatar, se sou pasto para os vermes e nada, nem ninguém pode contrariar esse facto?
Que me interessa viver se estou morto?
Ou morrer, se estou quase a ser eterno, espaço diminuto do tempo?