Deitei o meu ser num espaço vazio,
E nele julguei poder entender
A totalidade das coisas que me compõem.
Mas tudo era bem mais que
As letras que construi.
Tudo voltou ao normal:
O poeta exposto numa redoma de vidro
Acabara de anunciar o poder
Insubstituível do amor,
Ao passo que exércitos de pernas
Corriam as calçadas inertes nos seus pensamentos inertes
Fazendo da palavra uma mera banalidade.
O moço de entregas amaldiçoara o transito,
A senhora das limpezas os sapatos porcos,
O vento, o sol, a chuva, ao mesmo
tempo
Que deseja chegar a casa e desligar-se frente à televisão.
Quis ser tanto e fui tão pouco.
Olho para este papel branco, vida de papel,
E nele sinto a minha esvaziar-se, tarde de mais
Para poder sorrir,
Bem mais precoce para entender o porque
De ser hora de partir.
Deixo-te entregue em linhas rectas
Tudo isto que fui.
É pouco, bem sei que sim,
Mas não mais me foi permitido viver.
Os homens poderão mudar,
As mulheres poderão mudar,
O mundo poderá mudar,
E eu sei que parte de mim acompanhará esse
Futuro incerto neste meu filho
Fruto das minhas lágrimas
Que fui deixando depositadas
Numa folha de papel que o tempo marcará.
É já tempo de desenhar
Flores
No meu jardim, e um sol
Em cada um de nós.
Hoje é o tempo.