Sala escura. O mais impessoal possível, como se fosse inabitada, embora não poeirenta.
Ela – Tens a certeza de que não queres guardar isso?
Ele – Não; prefiro queimar.
Ela – Tens consciência de que, se o fizeres, não restará nada mais que nos sirva de recordação do teu pai.
Ele – Eu sei. Mesmo assim, prefiro queimar.
(Silêncio)
Ela – Mas será justo que as coisas que lhe pertenciam paguem pela desonestidade do seu dono?
Ele – Sei que não é, mas também sei que doravante a imagem do meu falecido pai ser-me-á mais odiosa que em qualquer outra ocasião. Por isso mesmo, prefiro queimar.
Ela – Mesmo sem saber qual o conteúdo dessa maldita carta? Não tens nem um pouco de curiosidade?
Ele – Sim. Acredita que, neste preciso momento, curiosidade é o que mais sinto. E por isso mesmo, prefiro queima-la antes que ela nos destrua.
Ela – Realmente… hoje estás impossível! Faz o que quiseres com o raio da carta, mas espero que não me voltes a incomodar com esse assunto!
(Silêncio sepulcral)
Ele – Isso tudo… não tem nada a ver com a carta, pois não?
Ela – O quê?
Ele – Esse teu súbito acesso de raiva… Tu e o meu pai…
Ela – Eu e ele, o quê?
Ele – (hesitando) Nunca tiveram nada um com o outro, pois não?
Ela – Mas de onde é que tiraste o raio dessa ideia, pode-se saber?
Ele – Eu sei que esta não foi a única carta que o meu pai deixou. Havia outra que, ironicamente, te era destinada. Digo ironicamente porque, pelo menos enquanto eu estive aqui, nunca soube que vocês se dessem a esse ponto. Este aspecto, entre outros que me foram confiados e outros ainda que certamente me irão ser revelados com o passar do tempo, levam-me a acreditar piamente no que digo!
Ela – Sempre foste muito fraco. A tua fraqueza é que te destruiu, nada mais! O teu pai, pelo menos, sabia como agradar uma mulher.
Ele – Efectivamente, numa coisa devo agradecer ao meu pai. Ele sempre me disse que ambição e fraqueza não podem caminhar de mãos dadas. O meu erro foi ter-te dado a mão quando era eu a ambição e tu a fraqueza!
(Silêncio)
Ela – E agora, já que chegamos até aqui, que tencionas fazer?
Ele – Inicialmente pensei em matar-te, o que seria um alívio para mim mas colocar-me-ia em muito maus lençóis. E até há bem pouco tempo, essa era a minha resolução final. Mas agora como sei que, possivelmente, o teu futuro depende desta carta, prefiro queima-la!
(Escuro lento. Uma pequena chama.)
Fim.