... descer das nuvens e viver com os pés bem assentes no ar!

22
Out 10

 

 

Sala escura. O mais impessoal possível, como se fosse inabitada, embora não poeirenta.


Ela – Tens a certeza de que não queres guardar isso?

Ele – Não; prefiro queimar.

Ela – Tens consciência de que, se o fizeres, não restará nada mais que nos sirva de recordação do teu pai.

Ele – Eu sei. Mesmo assim, prefiro queimar.

 

(Silêncio)

 

Ela – Mas será justo que as coisas que lhe pertenciam paguem pela desonestidade do seu dono?

Ele – Sei que não é, mas também sei que doravante a imagem do meu falecido pai ser-me-á mais odiosa que em qualquer outra ocasião. Por isso mesmo, prefiro queimar.

Ela – Mesmo sem saber qual o conteúdo dessa maldita carta? Não tens nem um pouco de curiosidade?

Ele – Sim. Acredita que, neste preciso momento, curiosidade é o que mais sinto. E por isso mesmo, prefiro queima-la antes que ela nos destrua.

Ela – Realmente… hoje estás impossível! Faz o que quiseres com o raio da carta, mas espero que não me voltes a incomodar com esse assunto!

 

(Silêncio sepulcral)

 

Ele – Isso tudo… não tem nada a ver com a carta, pois não?

Ela – O quê?

Ele – Esse teu súbito acesso de raiva… Tu e o meu pai…

Ela – Eu e ele, o quê?

Ele – (hesitando) Nunca tiveram nada um com o outro, pois não?

Ela – Mas de onde é que tiraste o raio dessa ideia, pode-se saber?

Ele – Eu sei que esta não foi a única carta que o meu pai deixou. Havia outra que, ironicamente, te era destinada. Digo ironicamente porque, pelo menos enquanto eu estive aqui, nunca soube que vocês se dessem a esse ponto. Este aspecto, entre outros que me foram confiados e outros ainda que certamente me irão ser revelados com o passar do tempo, levam-me a acreditar piamente no que digo!

Ela – Sempre foste muito fraco. A tua fraqueza é que te destruiu, nada mais! O teu pai, pelo menos, sabia como agradar uma mulher.

Ele – Efectivamente, numa coisa devo agradecer ao meu pai. Ele sempre me disse que ambição e fraqueza não podem caminhar de mãos dadas. O meu erro foi ter-te dado a mão quando era eu a ambição e tu a fraqueza!

 

(Silêncio)

 

Ela – E agora, já que chegamos até aqui, que tencionas fazer?

Ele – Inicialmente pensei em matar-te, o que seria um alívio para mim mas colocar-me-ia em muito maus lençóis. E até há bem pouco tempo, essa era a minha resolução final. Mas agora como sei que, possivelmente, o teu futuro depende desta carta, prefiro queima-la!

 

(Escuro lento. Uma pequena chama.)

 

Fim.

publicado por teatrodosonho às 09:23
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