... descer das nuvens e viver com os pés bem assentes no ar!

23
Ago 11

Tenho  sede e nem palavras tenho para me regar os lábios. Um deserto que corre por todo o meu corpo, como se ocupasse as veias onde deveria correr sangue, e nem memória sequer das madrugadas de cristal de uma qualquer primavera, ou de um riacho cabritando pelas pedras amolecidas, rolos de palha inertes nos grandes terrenos; saudades de sentir preso no peito uma saudade e nos olhos as lágrimas de ver partir. Como um miúdo depois de escrever um poema para o seu primeiro amor, escondido do mundo para se voltar a esconder depois de o entregar e que vê o seu primeiro amor a sorrir um sorriso de pequenas pérolas brancas e que vê esse sorriso entrelaçado com outro sorriso sem ser o dele, descobri que talvez o dia não tenha sido um feliz dia.

 

Tenho incrustado na língua o sabor seco do pó da estrada, quilómetros e quilómetros de um andar inútil e sem destino, e não vejo a hora em que o meu corpo me pedirá definitivamente para parar. Sei que irei sentir o cheiro adocicado da menta nos teus lábios e a brisa dos teus cabelos soltos. Desenharei com os dedos o mapa dos sinais do teu corpo como no tempo em que as nossas peles se fundiam numa só e isso bastará para partir com a luz dos teus olhos nos meus.

 

Outro pó de outros tempos que, solto no ar pelos pés que bailavam em roda-viva, traz-me de volta esse olhar que encontrei intencionalmente nesse baile de verão misturado por entre as cabeças dos outros pares e que o retinha como meu. Queria-o meu, mas no silêncio das palavras que encerrava dentro de mim. Ouvia o sussurro de súplica de um coração apertado e desiludido e cansado e acima de tudo, profundamente magoado e que tantas vezes o ouvira eu, falar desse imenso fado que acompanhava-te incessantemente sabendo eu, que não eram os meus olhos que procuravas no silêncio do teu pensamento mas sabia serem meus os momentos em que te escutava mergulhada na noite querendo simplesmente chorar. Aceitava-os com a mais profunda dedicação por querer amar um amor sincero. Nunca soubeste quem era verdadeiramente eu embora tenha sido verdadeiramente eu em todos os momentos que, juntos num qualquer sítio por um qualquer motivo ou então a convite, estávamos simplesmente. Eu, comigo, no meu silêncio, é que chorava o meu peito tal como tu tentavas couraçar o teu coração ao amor que sentias. 

publicado por teatrodosonho às 20:32

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