... descer das nuvens e viver com os pés bem assentes no ar!

26
Mar 11

Esta praça é redonda. Não, será tudo menos redonda. Porque terei dito que é redonda? Não faz sentido algum, tal como dizer que me sinto sozinho quando tenho os ombros massacrados de levar encontrões na avenida que precedeu esta praça, que é tudo menos redonda, semelhante a tantas outras, impessoais, cinzas de betão.

E, no entanto, estou só, perdido do meu carro que hoje decidiu não se mover. É estranho não o ter, sinto-me quase como que amputado de parte de mim, completamente aparte do mundo que se movimenta nesta praça; perdido.

Só sem estar sozinho numa praça que me pareceu redonda e que é tudo, menos redonda, e sem encontrar sentido algum nas minhas palavras. Mas isso não importa mais… decidi ausentar-me de mim mesmo, por sentir que não faz sentido viver uma vida em função de desejos superiores aos meus. Nem esta exaltação seria entendida nem aceite, se não tivesse sido feita, no silêncio do meu peito.

Querer está longe do poder, assim como a velhice está longe já do vigor de outrora. Lutar é outra coisa: poderei lutar toda uma vida sem me deslocar deste preciso local: perdemos os moinhos do D. Quixote, os cogumelos da Alice e até o seu maravilhoso mundo desapareceu, impedimos o principezinho de cuidar da sua rosa vermelha e matamos a raposa em troca de um caríssimo casaco de peles.

Que sentido há em tudo isto? Porque corremos nós mais que o tempo ou contra ele? Que pressa é essa que vos leva, doidos, a extorquirem-se a vocês mesmos, abdicarem, abdicarem, abdicarem?!...

Parem loucos que a vida foge-vos das mãos como areia seca por entre os dedos e correr assim é lançarem-se no abismo.

Poderei encontrar num gesto todo o sentido de uma vida, na saudade da partida, naquele comboio que poderá não trazer-te de volta, ou no mesmo que chegou e trouxe-me lágrimas abafadas num abraço sentido. É urgente viver e sorrir da vida que nos deram e colorir a que fizemos para nós. Morrer em vida não é humano.

E eu, que busco sentido nas coisas sem sentido, sorrio por te imaginar sorrir, mesmo quando aparentemente não há vontade de o fazer. Se esta praça fosse redonda, nada disto faria sentido, porque por voltas e mais voltas que desse, o caminho seria sempre o mesmo. O caminho é outro, de lágrimas de sorrisos e tristeza, mas sempre lágrimas de vida.

publicado por teatrodosonho às 10:28

24
Mar 11

Deitei o meu ser num espaço vazio,

E nele julguei poder entender

A totalidade das coisas que me compõem.

Mas tudo era bem mais que

As letras que construi.

Tudo voltou ao normal:

O poeta exposto numa redoma de vidro

Acabara de anunciar o poder

Insubstituível do amor,

Ao passo que exércitos de pernas

Corriam as calçadas inertes nos seus pensamentos inertes

Fazendo da palavra uma mera banalidade.

O moço de entregas amaldiçoara o transito,

A senhora das limpezas os sapatos porcos,

O vento, o sol, a chuva, ao mesmo

tempo

Que deseja chegar a casa e desligar-se frente à televisão.

Quis ser tanto e fui tão pouco.

Olho para este papel branco, vida de papel,

E nele sinto a minha esvaziar-se, tarde de mais

Para poder sorrir,

Bem mais precoce para entender o porque

De ser hora de partir.

Deixo-te entregue em linhas rectas

Tudo isto que fui.

É pouco, bem sei que sim,

Mas não mais me foi permitido viver.

Os homens poderão mudar,

As mulheres poderão mudar,

O mundo poderá mudar,

E eu sei que parte de mim acompanhará esse

Futuro incerto neste meu filho

Fruto das minhas lágrimas

Que fui deixando depositadas

Numa folha de papel que o tempo marcará.

É já tempo de desenhar

Flores

No meu jardim, e um sol

Em cada um de nós.

Hoje é o tempo.

publicado por teatrodosonho às 08:50
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22
Mar 11

Oiço ao fundo desta rua

Suaves passos como que

Prendas esperadas em silêncio

No burburinho da excitação;

A rua está deserta: apenas esse som

Que se propaga nos meus ouvidos

Teima em soar constantemente, na minha direcção.

E eu, perdido, e eu, silêncio expectante:

 

- Lembro-me do tempo em que os teus passos incertos brincavam nas pedras da calçada,

as tuas mãos apoiadas no meu ombro, o teu riso com caracóis que tudo invadiam com o seu perfume;

 

Quis uma manhã dourada

com sol reflectido no orvalho

Quis paz de espírito e um sorriso

Desenhado nos meus lábios

Mas até isso me foi negado:

Era noite, e ao fundo

O som dos passos que se desviavam da

Minha direcção, perdiam-se agora

No negro oculto.

Senti a minha mão procurar incerta

Um sitio incerto para não se

Sentir abandonada.

Parti.

publicado por teatrodosonho às 16:29
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