Esta praça é redonda. Não, será tudo menos redonda. Porque terei dito que é redonda? Não faz sentido algum, tal como dizer que me sinto sozinho quando tenho os ombros massacrados de levar encontrões na avenida que precedeu esta praça, que é tudo menos redonda, semelhante a tantas outras, impessoais, cinzas de betão.
E, no entanto, estou só, perdido do meu carro que hoje decidiu não se mover. É estranho não o ter, sinto-me quase como que amputado de parte de mim, completamente aparte do mundo que se movimenta nesta praça; perdido.
Só sem estar sozinho numa praça que me pareceu redonda e que é tudo, menos redonda, e sem encontrar sentido algum nas minhas palavras. Mas isso não importa mais… decidi ausentar-me de mim mesmo, por sentir que não faz sentido viver uma vida em função de desejos superiores aos meus. Nem esta exaltação seria entendida nem aceite, se não tivesse sido feita, no silêncio do meu peito.
Querer está longe do poder, assim como a velhice está longe já do vigor de outrora. Lutar é outra coisa: poderei lutar toda uma vida sem me deslocar deste preciso local: perdemos os moinhos do D. Quixote, os cogumelos da Alice e até o seu maravilhoso mundo desapareceu, impedimos o principezinho de cuidar da sua rosa vermelha e matamos a raposa em troca de um caríssimo casaco de peles.
Que sentido há em tudo isto? Porque corremos nós mais que o tempo ou contra ele? Que pressa é essa que vos leva, doidos, a extorquirem-se a vocês mesmos, abdicarem, abdicarem, abdicarem?!...
Parem loucos que a vida foge-vos das mãos como areia seca por entre os dedos e correr assim é lançarem-se no abismo.
Poderei encontrar num gesto todo o sentido de uma vida, na saudade da partida, naquele comboio que poderá não trazer-te de volta, ou no mesmo que chegou e trouxe-me lágrimas abafadas num abraço sentido. É urgente viver e sorrir da vida que nos deram e colorir a que fizemos para nós. Morrer em vida não é humano.
E eu, que busco sentido nas coisas sem sentido, sorrio por te imaginar sorrir, mesmo quando aparentemente não há vontade de o fazer. Se esta praça fosse redonda, nada disto faria sentido, porque por voltas e mais voltas que desse, o caminho seria sempre o mesmo. O caminho é outro, de lágrimas de sorrisos e tristeza, mas sempre lágrimas de vida.