... descer das nuvens e viver com os pés bem assentes no ar!

30
Out 10

Lembras-te?

Eu sei que não, possivelmente não.

Sei das páginas amarrotadas de um jornal de um outro dia qualquer,

Sei da sombra variável dos nossos corpos ao sol,

Sei o que foi, quando foi, onde foi, e, no entanto,

O que mais me dói,

É o que não fomos, onde não estivemos,

O que não demos, e o que não entendemos,

Quando a hora de receber chegou.

Sei do vento contra o meu corpo desprotegido,

Sei da página de jornal que em vão

Tentou abraçar-me, como se todo o mundo, o peso de todo o mundo,

O tentasse fazer.

Sei do calor que não senti e do toque que me faltou,

Sei de ti não te vendo,

Sei de ti não te sentindo…

Lembras-te?

Ou apagaste no tempo os dias em que vivi?

Sou incompleto em mim; Falta o que de mim tiraste,

Falta-me o que de ti levaste.

publicado por teatrodosonho às 13:45
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22
Out 10

 

 

Sala escura. O mais impessoal possível, como se fosse inabitada, embora não poeirenta.


Ela – Tens a certeza de que não queres guardar isso?

Ele – Não; prefiro queimar.

Ela – Tens consciência de que, se o fizeres, não restará nada mais que nos sirva de recordação do teu pai.

Ele – Eu sei. Mesmo assim, prefiro queimar.

 

(Silêncio)

 

Ela – Mas será justo que as coisas que lhe pertenciam paguem pela desonestidade do seu dono?

Ele – Sei que não é, mas também sei que doravante a imagem do meu falecido pai ser-me-á mais odiosa que em qualquer outra ocasião. Por isso mesmo, prefiro queimar.

Ela – Mesmo sem saber qual o conteúdo dessa maldita carta? Não tens nem um pouco de curiosidade?

Ele – Sim. Acredita que, neste preciso momento, curiosidade é o que mais sinto. E por isso mesmo, prefiro queima-la antes que ela nos destrua.

Ela – Realmente… hoje estás impossível! Faz o que quiseres com o raio da carta, mas espero que não me voltes a incomodar com esse assunto!

 

(Silêncio sepulcral)

 

Ele – Isso tudo… não tem nada a ver com a carta, pois não?

Ela – O quê?

Ele – Esse teu súbito acesso de raiva… Tu e o meu pai…

Ela – Eu e ele, o quê?

Ele – (hesitando) Nunca tiveram nada um com o outro, pois não?

Ela – Mas de onde é que tiraste o raio dessa ideia, pode-se saber?

Ele – Eu sei que esta não foi a única carta que o meu pai deixou. Havia outra que, ironicamente, te era destinada. Digo ironicamente porque, pelo menos enquanto eu estive aqui, nunca soube que vocês se dessem a esse ponto. Este aspecto, entre outros que me foram confiados e outros ainda que certamente me irão ser revelados com o passar do tempo, levam-me a acreditar piamente no que digo!

Ela – Sempre foste muito fraco. A tua fraqueza é que te destruiu, nada mais! O teu pai, pelo menos, sabia como agradar uma mulher.

Ele – Efectivamente, numa coisa devo agradecer ao meu pai. Ele sempre me disse que ambição e fraqueza não podem caminhar de mãos dadas. O meu erro foi ter-te dado a mão quando era eu a ambição e tu a fraqueza!

 

(Silêncio)

 

Ela – E agora, já que chegamos até aqui, que tencionas fazer?

Ele – Inicialmente pensei em matar-te, o que seria um alívio para mim mas colocar-me-ia em muito maus lençóis. E até há bem pouco tempo, essa era a minha resolução final. Mas agora como sei que, possivelmente, o teu futuro depende desta carta, prefiro queima-la!

 

(Escuro lento. Uma pequena chama.)

 

Fim.

publicado por teatrodosonho às 09:23
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19
Out 10

Tinha os olhos postos no umbral da janela de chuva.

 

O vento rompia por entre as frestas do quarto, uivante, fustigando tudo por onde passava.

O último grito que dera perdeu-se no tempo que corria, agora, lentamente. Ecoavam passos dispersos por toda a casa, passos de gente que caminhava em silêncio. Tudo era respeito sentido, tristeza de quem tenta compreender a dor do próximo.

Ele nasceu sem ter pedido.

Ela descansava agora, extenuada do esforço, cansada de parir, cansada de viver, enquanto o seu corpo dormente pedia água.

 

 

 

 

Por vezes paro no silêncio das sombras que me perseguem e olho-as. Outras corro ao lado.

 

*

 

Talvez chegue hoje, na linha do mar e do trilho.

Talvez me batam no ombro, talvez…

E se não quiser esperar, correrei no tempo, como a chuva correu naquele dia,

o dia em que vivi, o dia que não vi.

Talvez vá e fique, sempre, por querer ficar e cair.

Talvez haja outro talvez…

Talvez...

 

*

 

Fascina-me esta ideia de tempo, tempo que vai e leva. Ocupo os meus dias sonâmbulos perseguindo-o, como se pelo simples facto de correr atrás dele o conquistasse, o pudesse prender entre os meus dedos, nunca com a ideia de o reter, mas sim de o dominar.

Que me interessa a mim tempo parado? Se estou eu parado no tempo, e não me consigo resgatar, se sou pasto para os vermes e nada, nem ninguém pode contrariar esse facto?

Que me interessa viver se estou morto?

Ou morrer, se estou quase a ser eterno, espaço diminuto do tempo?

publicado por teatrodosonho às 13:02
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16
Out 10
publicado por teatrodosonho às 14:15

15
Out 10

Primeiro Manifesto:

 

 

 

*

 

Declare-se o fim da arte! Parem artesãos, cessem o labutar das vossas mãos calejadas. Este é o Tempo final.

 

- Tenho que te dizer: As palavras são vidros que quebram. São água e pó e fumo, quando não certificadas. O que tenho para te contar, o que tenho para te dizer, não quer ser nem palavras nem verbos. Não quer ser nem ficção nem realidade. Apenas carrega todas as incertezas que temos antes das certezas, o desejo de certezas... porque há sempre mais a dizer, sobretudo quando as palavras não bastam.


Noites de insónia que experimento, ouvindo na minha cabeça, a todo o instante, exércitos de bisturi em punho,…  disseminar,… examinar,… comprovar,…  defecar teorias da boca para fora, impressas no capitulo X do inacessível livro Y, apenas acenado com o intuito de comprovar o porquê de se estar a engolir sem saber o que se come. Todo eu sou este quarto cinza, este lençol rompido que me abraça sem nunca me satisfazer, esta luz pública, artificial, que tenta romper por entre as frestas da janela. Todo eu sou, agora, penumbra, todo eu me perco sem nunca me encontrar, ausente de mim, por não conseguir ser quem sou neste mundo que não é meu. - Este não é o teu tempo, dissera, nem esta a tua hora!

 

- O teu rosto não estava deitado no meu peito e não senti o perfume do teu cabelo, tão único, tão teu...

Pedi ao tempo que me devolvesse as horas que vou perdendo sem ti, mas dele não obtive resposta alguma. Apenas o silêncio deste espaço tão nosso, tão vazio sem a tua presença. Que é feito de ti, meu amor, agora que os meus olhos não estão presos nos teus?

Foi quando vi que tudo era bem mais que as palavras que me corriam no cérebro, mais que qualquer conceito, livro ou sabedoria. Nada justificava a tua ausência, o teu calor. – Fica, disse eu para mim, fica! O silêncio. Nada.


O silêncio.


As palavras que, em silêncio, vou deixando perdidas no tempo, tudo o que vou perdendo ou ganhando por calar a imensidão do que sinto, neste tempo que nada pede para alem daquilo que é comum! Saber que o tempo tem passado por mim, saber que fiquei de fora do Grande Banquete Universal por não ter sido convidado, sequer! Conhecer o sabor de cada manjar, deleite dos deuses, e provar apenas o gosto sujo do pó que os meus pés levantam, nesta estrada deserta, desconhecida, quilómetros sobre quilómetros de solidão.

Quem sou eu? Fiz-me assim, sem passado nem futuro? Ser presente, todos os dias, apenas serve para que o lodo da estagnação se torne mais letal, e que o ar fétido povoe o pensamento, corrosivo, standard, copy-paste, todos cópias, todos em série. Sou a margem e o lodo, um pé no paraíso, outro no inferno, sou eu, este que olha para cima e vê que lhe cortaram a corda que o prendia, sou eu, este que estava na ponta da fragilidade, cabeça apontada em direcção ao precipício.

 

- Falemos de tudo! Os olhos, os teus olhos... foram eles! Não apenas, claro, mas vou-os vendo, grandes, expressivos, únicos. Os teus lábios... sim, palavras que dizes, o traço, o sabor, desejo; mas no tempo antes das palavras, no tempo de furtivos olhares, eram eles, os teus olhos, que me falavam, passavam para lá das ideias, do que não conseguia ser dito!


Paro: acendo um cigarro. Um segundo de suspensão... e vejo o fumo que paira no ar até se desfazer!.. Olho em frente: A terra. A água. As lágrimas.

*

publicado por teatrodosonho às 11:30
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