Primeiro Manifesto:
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Declare-se o fim da arte! Parem artesãos, cessem o labutar das vossas mãos calejadas. Este é o Tempo final.
- Tenho que te dizer: As palavras são vidros que quebram. São água e pó e fumo, quando não certificadas. O que tenho para te contar, o que tenho para te dizer, não quer ser nem palavras nem verbos. Não quer ser nem ficção nem realidade. Apenas carrega todas as incertezas que temos antes das certezas, o desejo de certezas... porque há sempre mais a dizer, sobretudo quando as palavras não bastam.
Noites de insónia que experimento, ouvindo na minha cabeça, a todo o instante, exércitos de bisturi em punho,… disseminar,… examinar,… comprovar,… defecar teorias da boca para fora, impressas no capitulo X do inacessível livro Y, apenas acenado com o intuito de comprovar o porquê de se estar a engolir sem saber o que se come. Todo eu sou este quarto cinza, este lençol rompido que me abraça sem nunca me satisfazer, esta luz pública, artificial, que tenta romper por entre as frestas da janela. Todo eu sou, agora, penumbra, todo eu me perco sem nunca me encontrar, ausente de mim, por não conseguir ser quem sou neste mundo que não é meu. - Este não é o teu tempo, dissera, nem esta a tua hora!
- O teu rosto não estava deitado no meu peito e não senti o perfume do teu cabelo, tão único, tão teu...
Pedi ao tempo que me devolvesse as horas que vou perdendo sem ti, mas dele não obtive resposta alguma. Apenas o silêncio deste espaço tão nosso, tão vazio sem a tua presença. Que é feito de ti, meu amor, agora que os meus olhos não estão presos nos teus?
Foi quando vi que tudo era bem mais que as palavras que me corriam no cérebro, mais que qualquer conceito, livro ou sabedoria. Nada justificava a tua ausência, o teu calor. – Fica, disse eu para mim, fica! O silêncio. Nada.
O silêncio.
As palavras que, em silêncio, vou deixando perdidas no tempo, tudo o que vou perdendo ou ganhando por calar a imensidão do que sinto, neste tempo que nada pede para alem daquilo que é comum! Saber que o tempo tem passado por mim, saber que fiquei de fora do Grande Banquete Universal por não ter sido convidado, sequer! Conhecer o sabor de cada manjar, deleite dos deuses, e provar apenas o gosto sujo do pó que os meus pés levantam, nesta estrada deserta, desconhecida, quilómetros sobre quilómetros de solidão.
Quem sou eu? Fiz-me assim, sem passado nem futuro? Ser presente, todos os dias, apenas serve para que o lodo da estagnação se torne mais letal, e que o ar fétido povoe o pensamento, corrosivo, standard, copy-paste, todos cópias, todos em série. Sou a margem e o lodo, um pé no paraíso, outro no inferno, sou eu, este que olha para cima e vê que lhe cortaram a corda que o prendia, sou eu, este que estava na ponta da fragilidade, cabeça apontada em direcção ao precipício.
- Falemos de tudo! Os olhos, os teus olhos... foram eles! Não apenas, claro, mas vou-os vendo, grandes, expressivos, únicos. Os teus lábios... sim, palavras que dizes, o traço, o sabor, desejo; mas no tempo antes das palavras, no tempo de furtivos olhares, eram eles, os teus olhos, que me falavam, passavam para lá das ideias, do que não conseguia ser dito!
Paro: acendo um cigarro. Um segundo de suspensão... e vejo o fumo que paira no ar até se desfazer!.. Olho em frente: A terra. A água. As lágrimas.
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